Praças, parques e áreas de convivência cumprem uma função que vai muito além do lazer. São lugares de encontro, circulação, convivência e exercício da própria vida urbana. Por isso, quando a resposta para problemas de segurança é simplesmente colocar grades e controlar acessos, é preciso perguntar: estamos protegendo o espaço público ou diminuindo sua função pública?
Essa reflexão é apresentada pelo urbanista Anthony Ling no artigo “Cercar espaços públicos é errado em todos os sentidos imagináveis”, publicado pelo Caos Planejado. O autor questiona justamente a ideia de que cercas e muros sejam soluções naturais para tornar praças e parques mais seguros.
Um dos argumentos centrais vem do conceito dos “olhos da rua”, associado à urbanista Jane Jacobs. A presença constante de pessoas — caminhando, conversando, trabalhando, praticando atividades ou simplesmente ocupando a cidade — produz uma espécie de fiscalização espontânea do espaço urbano.
Quando colocamos uma barreira, podemos produzir justamente o contrário: menos circulação junto às grades, menos interação entre o interior e o exterior e áreas “mortas” no entorno. Na interpretação apresentada por Ling, o problema da violência pode simplesmente ser deslocado, em vez de resolvido.
Segurança se faz ocupando o espaço
A alternativa proposta é interessante porque muda completamente a lógica.
Em vez de perguntar “como impedir as pessoas de entrar?”, a administração pública deveria perguntar:
“Como fazer as pessoas qu ererem permanecer aqui?”
Isso significa investir em iluminação, boas calçadas, limpeza, paisagismo, bancos, manutenção, fiscalização e atividades capazes de atrair diferentes públicos durante vários períodos do dia.
Feiras, cultura, esporte, comércio e eventos também ajudam a transformar um espaço vazio em um espaço vivo. O artigo cita orientações do Project for Public Spaces que val
orizam justamente visibilidade, abertura e permeabilidade como características relevantes para espaços públicos mais seguros.
O raciocínio é simples: um espaço cuidado atrai pessoas; pessoas geram movimento; e movimento produz vigilância natural.
Uma praça cercada continua sendo verdadeiramente pública?
Existe ainda uma questão mais profunda.
Espaço público pressupõe acesso.
Praças e parques também são lugares de convivência entre pessoas diferentes, manifestações culturais, encontros comunitários e até manifestações cívicas. Quando cercamos e estabelecemos horários e pontos controlados de entrada, alteramos parte dessa natureza.
É evidente que cada praça ou parque possui características próprias e que situações concretas de segurança precisam ser consideradas. Mas transformar o cercamento na primeira resposta pode significar atacar o efeito em vez da causa.
A experiência urbana discutida no artigo aponta para outra direção: antes de construir barreiras, devemos melhorar a cidade.
Mais iluminação.
Mais manutenção.
Mais atividades.
Mais segurança pública.
Mais gente utilizando os espaços.
Uma cidade melhor não é aquela que consegue colocar uma cerca em cada problema.
É aquela que consegue fazer seus espaços públicos serem tão cuidados, movimentados e seguros que as pessoas queiram ocupá-los.
Porque praça pública não deveria ser um lugar do qual precisamos manter as pessoas afastadas.
Deveria ser exatamente o lugar onde queremos encontrá-las.
Texto elaborado a partir das reflexões apresentadas por Anthony Ling em “Cercar espaços públicos é errado em todos os sentidos imagináveis”, publicado no Caos Planejado em 17 de setembro de 2026.